quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Pecado Paulistano


Saí em um sábado de sol, um dia lindo de verdade, passei no posto de gasolina abasteci o carro, peguei minha namorada e fomos à um restaurante Japonês, pedimos rodízio completo de sushi, comemos, bebemos, conversamos, rimos e tudo normal, pedi uma repetição do sashimi (peixe-cru) e quando chega o peixe e não é o primeiro restaurante que observo que sempre na repetição, eles já não  apresentam o prato com a mesma aparência e carinho que servem no primeiro, o peixe já apresenta um aspecto bem “morto” mesmo! E com nervos e coisas assim, tudo bem, estou com minha namorada para me distrair de uma semana infernal de trabalho, transito, poluição de caminhões que nem de longe fizeram a “inspeção veicular” e sendo assim não vou me estressar certo?
Saio do restaurante, e vou até a loja onde já comprei um som para o carro, lá pego um papel que segundo a loja, tenho 50% de desconto na instalação. Chegando ao local, eles dizem que meu carro não possui algumas peças “super necessárias” á instalação do som, foi simplesmente a instalação de som mais cara da minha vida sendo que outro dia fui a um outro lugar tirar o som para vender o carro, e o técnico falou que só havia os fios e o som, não havia nada que os caras haviam dito que instalaram, mas... Tudo bem, não vou me estressar certo?
Naquele mesmo dia quando sai da tal loja que instalou o som, olho no marcador do nível da gasolina e cadê a gasolina? Acabou! Pois com certeza aquela gasolina era álcool! Tive que colocar mais gasolina e muito puto da vida, ir para casa. Estou realmente ficando puto!
Bem como era aniversário de namoro, eu e minha namorada resolvemos ir dormir em um motel para variar um pouco, era sábado como já disse e o único motel possível era um do lado de onde caiu o avião da TAM no Campo Belo debaixo da cabeceira do aeroporto de Congonhas, paguei um absurdo, pois sabiam que não havia vagas em lugar nenhum (rodei quase SP toda) e entramos. Eram cinco e meia da manhã quando o quarto começou a tremer, caiu uma taça no chão. Era um “Boeing sei lá o que” há vinte metros da minha cabeça, passando sobre nós. Legal, ótimo, excelente! Vamos embora, fomos para casa e de volta à rotina, domingo chegou.

Domingo chegou e fomos almoçar numa churrascaria, onde havia uma placa com os dizeres: “Almoço R$17,50, menos aos fins de semana e feriados”. Bem, era domingo, porém o que vocês pensariam em relação ao custo do almoço de domingo? Eu pensei no máximo em trinta reais ou algo por ai, poxa pensei quase ou no dobro, não é o bastante? O preço era R$ 70,00 a cabeça por um atendimento de almoço de “PF”.
Na segunda-feira só me restou me olhar no espelho e pensar de como era bom este fator na minha cidade, como era bom poder levar o carro no meu mecânico que ia ao ensaio da minha banda ou o outro que até tocava comigo, almoçar nos restaurantes onde todos te chamam pelo nome, lugares que já sabem até o que você gosta de comer e onde fica sua mesa preferida, ir à prefeitura e ter uma legião de amigos que mesmo ocupados lhe atendem com sorrisos no rosto, pois vão mais tarde para o happyhour com você. Isso meus amigos não tem preço mesmo. Lógico que há os maus comerciantes e maus funcionários em qualquer lugar e em qualquer tipo de empresa ou entidade pública ou privada, mas é bem melhor você poder confiar no que está comprando, comendo, bebendo e sobre tudo confiar nas pessoas.
Este tipo de pensamento e atitudes, que ocorrem sobretudo nas grandes cidades, arruinam uma relação que as pessoas que assim agem, não imaginam quão benéfico seria para seus comércios e para suas almas, pois dinheiro ganho desta forma eu sei onde vai parar e a felicidade não pode nascer ali.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Conselhos Revoltos e Divagantes

  











  Eu estava lá sentado frente ao mar, olhando para o horizonte, para o intangível, pensando e pensando até doer na cabeça. Os sonhos, as dúvidas, os lamentos, as alegrias e tudo que se pode pensar vendo a beleza do mar sereno e frio. Ai sempre me vinha à mente algumas coisas sobre os meus relacionamentos todos, com parentes, mulheres, vizinhos, amigos, enfim, pessoas. Sempre me esforcei para estar presente aos acontecimentos de todos, participar, ser pontual, honesto até o ponto permitido pelo que para mim é decência, carinhoso para com todos, até o ponto permitido pelo que para mim é humano e ali sentado fronte ao oceano descobri que em muitos dos casos estes valores estão errados para com muitas das pessoas, as pessoas querem ser agradadas, querem compartilhar valores que aprendi em certo lugar a desprezar e valorizar a condição realmente humana.

    
Eram oito horas da manhã, há meses que não dormia, a vida era festa, não havia tempo para descanso, na verdade já estava começando a me sentir um escravo da vida vã. Nos primeiros minutos de momento de sono e descanso em um sofá velho, acordo chutado por um dos patrocinadores de uma badalada casa noturna da cidade, perguntando se eu estava doente por ficar dormindo, atrás dele o batalhão da futilidade, promoters da balada, umas quinze mocinhas drogadas com olhos sem brilho, como soldados robóticos atrás de seu comandante ditador, com sua munição infindável de dinheiro e drogas. “Ela não quer dar pra você? Dá uma “balinha para ela porra”!” Funcionava na hora, olhava para as pessoas e todas elas ao meu redor queriam alguma coisa, algo material, algo que cobrisse e tampasse o buraco negro infinito de suas superficialidades, estavam ali se sugando, se comendo como a um bife que quando sobra osso, não serve mais. A depressão já pesava nos meus olhos, não me despedi, fui embora e não voltei.
   Conselhos Revoltos e Divagantes
A escola é chata, a professora idiota, o mundo é uma bosta e eu um adolescente cabeludo, na verdade cabelo, nariz e coturno, essa era uma boa descrição do rapaz. Chegou à época do alistamento militar, não quis servir o exercito nem marinha muito menos aeronáutica, jogava basquete, briguei com o babaca do treinador, não fui mais, comprei meu primeiro maço de cigarros, me tornei um imbecil, americanizado, apolítico, uma barata que só consome e não produz, uma verdadeira infelicidade, a gente nunca escuta mesmo os nossos pais. Tornei-me o que o governo queria que tornasse. Um vazio consumidor, que não notava nada ao seu redor a não ser ele mesmo e prazeres do momento. A futilidade me seguia de perto.
  Voltando para frente ao mar, pensava nas trocas, as pessoas ao meu redor não eram despojadas de nada, só andavam com quem interessavam, só viviam ao redor do que lhe rendiam algo, só cumprimentavam efusivas, os que tinham algo para oferecer, não vou falar de pessoas fisicamente lindas com pessoas horrendas e sem o mínimo de cultura para manter uma conversa de um minuto com uma mosca, mas vou falar do interesse, da falta de paciência com a carência e necessidade, do sofrimento, da tristeza de pensar que em muitas cabeças realmente o que importa é um conforto com algo que não lhe pertence, pois tudo vai ficar aqui, e você vai apodrecer. Os relacionamentos em sua grande maioria quando terminam, foi por que alguma coisa, matéria faltou, muitas vezes são pessoas que na verdade estavam bem intencionadas, porém sempre queremos “estar bem” e “estar bem” para muita gente, é ter bens. O impressionante é quando a gente acha alguém que espera da gente só atenção, carinho e tudo mais que muitas vezes nem pensamos mais sobre isso e estranhamos, pois pensamos mesmo em “ter”. A pessoa que não é um “ter” assusta, e um casal assim até incomoda. Quantos casais hippies cultos, lindos, felizes e pobres vocês já não viram?
  
 O pensamento que tenho é o seguinte, temos que educar demais nossos filhos, para que não desperdicem as oportunidades da vida, para que realmente respeitem e aprendam com os mais velhos, aproveitem que o Brasil ainda tem grandes faculdades públicas, há chances em certos esportes, a carreira militar é linda e seu filho terá educação para passar para umas dez gerações de sua família, pois senão, como eu, ele ira perder um “puta” tempo na vida. Não que me arrependa, pois hoje sou feliz, mas não precisava ter passado por várias coisas e ter feito meus pais passarem também, e pra terminar, respeitem a caridade, quando forem por fazê-la: “NÃO SAIBA A TUA MÃO ESQUERDA O QUE FAZ A DIREITA”. (Matheus)
   

domingo, 14 de agosto de 2011

Uma Caneta e um papel



Uma grande salva de palmas, forçando a visão bem ofuscada pelo brilho do sol homenageado, pés quentes na areia já descalços de horas e horas atrás. Assim começava mais um dia após uma noite que como sempre, lancinante. Corpo já molhado há horas, agitado, eufórico, dono do seu mundo e do seu lugar, senhor do todo seu reino, a juventude dominando a inércia de seu destino e assim é, e pronto. Correndo para o bem, atrás do conforto fortuito de pedra em pedra da encosta, ondas de uma maré extremada não o arrastavam por oceanos á fora por pura, desmedida virtuose. Os mariscos estavam lá nas pedras junto ao mar nervoso, com uma alegria nos olhos arrancava os mariscos de seu longo descanso, com uma cavadeira rasgava ramas da pedra e as pegava enquanto o mar já armava outro golpe de suas ondas, voltava correndo de costas sentindo o mar lamber seus pés apenas com a espuma, o calor da pedra queimava seus pés e mesmo assim a sensação era boa. Após tempo, o fruto do trabalho já pesava nas costas, transportado de pedra em pedra, chegava à areia recebido com festa, a fogueira do luau agora era o fogão de todos. Joel com o panelão em mãos gritava de feliz, de pronto para o preparo do “lambe-lambe”, todos ali, como se a vida fosse apenas repetições de ontem e de ontem e de ontem...

Ali, com o fogo alto, a fervura na panela, chega um pessoal estranho, eles com carnes, frango, lingüiça e o churrasco feito: Podemos nos juntar e nesse fogo fazer um churrasco com vocês? Perguntou um deles e todos de pronto: LÓGICO BROOOOW!!! E assim juntaram-se todos em degustação de um desjejum maravilhoso com o mar da Vermelha e o Sol como testemunha de dias perfeitos. Assim a vida estava como teria que ser. Ele não pesava mais do que devia, a vida era boa e sua saúde era perfeita, os pulmões funcionando. Comia, bebendo sempre, saco sem fundo, senhor esponja, não fazia confusão com nada, dominava o álcool, cansaço desconhecia e fadiga palavra estranha que só personagem de TV insiste em usar. Mulheres sorrindo, o vento ali, nos cabelos, conversas e juras de amizades eternas e amores verozes. Mais gente chegava e de repente o susto! Um cara realmente verde, aparentemente ele nunca havia dormido, jogado bola, sentido o riso desentorpecido ou mesmo sido um bebê. E como sempre estes tipos chegavam nele primeiro do que no próprio lugar onde estavam, como se o achassem antes de irem para lá, como se diria na Vermelha, “para-raio de exu”. "Eai, você toma ácido"? Sem ao menos, bom dia ou algo que o valha o “ser” perguntou. Parou olhou bem nos olhos do rapaz estranho e: “LÓGICO BROOOOW!!! Já correndo junto ao estranho em direção ao carro, aonde chegaram com o estranho quase infartado pela pequena corrida, o cara abre o carro e de baixo do painel ele puxa um papel preto e com uma lista branca, quadriculado quando visto de perto, devia haver uns duzentos quadrados de LSD ali, o estranho picota dois quadrados e toma um e dá outro a ele, voltam para a praia já irmãos de sangue, e a alegria inchada nos olhos lacrimosos de tanto riso sem causa, o mundo estava engraçado, finalmente! A sensação de afeto, acolhimento e felicidade “numbed”. Podia beber o mundo e enfrentar a todos, o chão era pouco e tinha que voar. “Toma mais um?”“Bora lá!” E assim haviam tomado três doses do que disse ser a droga mais forte que tomara em sua vida de adolescente-adulto, a cada dose sua boca se enchia com o gosto da química e de sua boca o corpo sentia o poder da droga ali disposta ao léu.

Seu celular tocava sem parar, era seu parceiro de sempre, amigos desde tempos de pré-escola; “Eai! Beleza? Tem um cara dando “doce” para todo mundo nessa porra!” “Já to chegando!” Logo os dois estavam juntos com o “cara verde” já planejando um churrasco regado a muita cerveja e tudo que fosse álcool. A Vermelha já estava no passado, a carne queimava na grelha e a alegria robótica, histérica e revoltada era a energia do lugar, um aparelho de som emitia altos decibéis nos ouvidos famintos por ruídos da música eletrônica e futilidade, ele já havia tomado cinco quadrados e estava bem, sentia-se o sociável do mês e tudo era lindo e colorido. Olha para lado olha e para o outro, vê seu amigo rolando em convulsões horríveis, uma das garotas lhe ajudando e quando o amigo demonstra-se estável o levam para o hospital e assim ele e o homem verde vão para o outro lado da cidade.
Vermelha do Norte era o lugar, com campeonato de surf, televisão, e sobre tudo amostra grátis de uma cerveja com tequila. Já era o melhor amigo das meninas da cerveja e á tomava como sempre sem limites, forte, o mal estava sempre longe demais dos domínios de sua vida. Era leve e fluente, os passos fora do chão acima realmente de todo mal, tudo era reluzente, as falas eram profundas e ele estava bem.
Voltaram para a cidade e o estranho cidadão verde o deixara em sua casa após dois dias de rua, dois dias sem dormir, ele chegou, abriu a porta pensando... “Nossa! Até que eu estou muito bem! E assim ele entrou passando pela porta automaticamente, dando boa noite automaticamente á sua mãe, deitada no sofá assistindo um programa de TV qualquer, entrou no seu quarto, tirou a carteira do bolso cheio de areia da praia de sua bermuda, jogou junto com o cigarro e isqueiro num canto da escrivaninha, e se dirigiu a cozinha, pensava: “Esse treco é fraquinho, “to” de boa!”E assim pegou o isqueiro velho no canto da janela e apenas com a faísca ascendeu uma boca do fogão e colocou o espaguete ao molho que sua mãe preparara tradicionalmente para o domingo, ele realmente amava aquele espaguete, o sobrenome e sua fisionomia eram prova de descendência italiana, mas o gourmet que entregava suas origens a longa vista. O prato estava na mesa, era muito bonito de se ver, podia-se imaginar o gosto, molho vermelho mesmo, o frango refogado no alho, salsinha, pimentão e tomate finalizavam o prato simples, comum, mas original das mãos que os fizeram. A boca cheia d água, enrola levemente o espaguete no garfo, olha para a TV e nota que passa algum programa imbecil de TV aberta, leva o garfo até a boca e... Ahhhhhhhhh... um grito aterrorizante ecoa no ambiente de sua sala, um grito de medo e entrega da alma realmente, realmente aterrorizante. Olha para o lado e sua mãe continua assistindo TV, deitada calmamente e tudo tranqüilo, calmo. Ele olha para os lados e nada, tudo com antes, acha estranho e volta a dirigir o garfo à boca e... AHHHHHHH.... o grito era maior e mais desesperador, olha rapidamente para todos os lados e... nada, tudo igual, tudo normal.
Meu! Eu “to” muito louco mesmo. Constatou em sua mente já atormentada, pegou seu prato e sem dizer uma palavra andou assustado para seu quarto que ficava fora da casa, o quarto era grande, havia ali uma TV, um aparelho de som que sozinho já embalara festas e muitas reuniões de amigos mil, uma escrivaninha com CDs, livros entre outros. Sentou-se em sua cama, colocou o prato na escrivaninha e começou comer novamente e tranqüilo,  comeu em paz, se satisfez, e sentiu-se bem, olhou para seus braços, veias saltadas e viu como estava louco, como havia em sua mente mil pensamentos, estava com medo de ver coisas, não queria ficar tão mal com sua mãe ali, começou a pensar na morte, olhava para suas veias pulsantes, tinha certeza de sua morte, estava a ponto de um infarto, o ar lhe faltava, a sensação de angustia era presente de forma quase concreta, foi até o banheiro e olhou para seu rosto, o tempo ali parara se olhava nos olhos e pensava, pensava em sobreviver, mas tinha certeza da morte, ela era certa, pensou consigo: "Preciso de uma caneta e um papel, preciso deixar á meus pais uma carta, uma despedida, uma lembrança póstuma de meu amor de filho por vezes fútil e monótono". Tudo apagou.

Abriu os olhos vagarosamente e de repente viu que estava com o nariz colado na tela do aparelho de TV desligado de seu quarto, olhava fixamente para a tela, seu corpo estava lá... Deitado em sua cama, podia se ver pelo reflexo da tela, podia ver que estava morto, acabou e acreditou que existia mesmo vida após a morte, tudo havia acabado naquele plano, porém havia outro.

Abriu os olhos vagarosamente e eles arderam devido a forte luz, a luz ardia em seus olhos, era o sol, um sol de um novo dia, ele se levantou e como sempre, sem dor, inteiro, acordou sorrindo, mas não sabia responder o que havia ocorrido em muitos dos momentos da noite passada e em muitos outros momentos do dia todo, havia se tornado um zumbi durante aquele tempo, mas aos poucos as memórias de algumas coisas vinham a mente, se lembrou de que pensava estar morto e que vira seu corpo de fora dele, e sentiu-se recebedor de um milagre, o dono de uma segunda chance, a vida lhe presenteara com um dia lindo de céu azul. Estava bem e não havia morrido, o desespero havia passado, tudo estava bem, reparou que acordara com pessoas gritando seu nome lá fora, um gritava e outro ria, não se moveu, apenas abriu os olhos e escutava e olhava para os cantos de seu quarto procurando algo estranho que porventura estaria fora de lugar, levantou levemente a cabeça e olhou para a escrivaninha ao lado de sua cama, havia algo fora do lugar, havia ali, uma caneta e um papel. Ele se entusiasmara, “vai ser a escrita de um louco que acreditava estar realmente na hora de sua morte.” Pensou. Levantou de vez e pegou a caneta olhou, pegou o papel, era um papel de saco de pão francês dobrado, pensou no tamanho de sua curiosidade, em quanto queria aprender sobre ele mesmo, saber o que se passava na cabeça de um zumbi drogado, de uma pessoa realmente fora de si, abriu o papel dirigiu os olhos com respeito ao manuscrito correu os olhos sobre todo o papel. Com sorriso indignado, os olhos se iluminaram, ele não acreditava, lia e re-lia em voz alta, “Uma caneta e um papel”.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Vida de Frango



  Eram 4 horas da manhã, abri meus olhos e com a visão embaçada me sentia triste pelo meu sono ter acabo juntamente com meu sonho, onde ciscava em um terreiro, uma sensação de liberdade hormonal, com minhas asas não podadas e meu organismo limpo, podendo simplesmente perambular pelos arredores, tirar a minhoca fujona da terra e tudo mais que eu quisesse fazer.
  Minha visão volta ao normal e novamente a minha rotina esta de volta, presa em uma cela de nó máximo 30 centímetros quadrados, sem ao menos ser uma ave do crime. Se pelo menos eu tivesse bicado o meu dono!? Se pelo menos eu me recusasse a botar!? Não, eu estava ali sem poder me mexer, o meu corpo dói em sua totalidade, o meu cérebro não entende mais nada, os hormônios estão corrompendo todo meu organismo e já não sou o que sou.
  Logo chega o capataz e virá a confirmar as minhas estatísticas de máquina que agora sou, a comida entra pelo bico e o ovo deve  sair pela culatra. Quando alguns dos meus ovos são “cuidadosamente” selecionados para serem frangos, a tristeza me consome de vez, os que nascem com uma simples pena distorcida, vão com vida ao lixo, incinerador ou coisa que o valha. Deus que gente é essa que me deixa aqui por toda a minha vida, nestes 30 centímetros quadrados, onde não posso nem ao menos virar meu pescoço de lado.

Algumas companheiras estão perdendo a cabeça, elas estão comendo umas as outras, dizem que é devido ao strees, elas não sabem o que dizem, estressados são os humanos que tem tanto trabalho com a gente. O canibalismo era coisa que nunca pensei em ver entre a nossa espécie tão pacífica e com vida social tão bacana não é? E fico aqui com minha filosofia de galinha máquina chocadeira, pensando na palavra “humano”, “humanismo”, em como isso me surpreende quando o ser humano diz que quando em tal situação é necessário se ter mais “humanismo”, meu Deus o que eles fazem com eles mesmos quando usam esse tal de “humanismo”? Deixam as pessoas à vida toda em trinta centímetros quadrados? 

  Fiquei sabendo de um pessoal que tem uma vida pior que a minha e que os humanos comem sua carne e cobram bem mais caro que a minha por ai... é eu ouvi o capataz daqui comentar com amigos outro dia. Ele fica no escuro, numa cela fria de chão batido, é obrigado a comer o dia inteiro feito á gente e morre novinho novinho coitado. Parece que eles o chamam de “Vitela”, ou para o “ser humano” “Carne de Vitela”. Às vezes acho que esses “seres” não são daqui deste planeta e vieram apenas sugar toda a vida dele.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

A história de Allah-Bilama - Introdução

Estavamos todos nós amigos de sempre e adolescentes na época, reunidos felizes da vida, quando um "tiozão" hippie, chegou e nos contou uma história bem loca que descrevo abaixo para vocês. E é lógico que coloquei um pouco de romantismo no texto para dar um pouco mais de emoção, acredito que meus amigos gostarão de ver este texto ai de baixo! Boa Leitura e Abraço a todos...

Dario Venturi Filho

A história de Allah-Bilama


 A história de Allah-Bilama


  Não havia nada, nem céu, nem universo, nem vida e nem morte, muito menos bem e mal, ausência do tudo como um todo de nada é o que tinha, um vácuo sem fim. E era ali que vivia o Mestre do seu nada, no vácuo, no nada, sempre flutuando e vagando pelo rol da ausência eterna.
Barba e cabelos se estendiam por proporções infinitas, o tempo não existia também, e todos os parâmetros obsoletos de tempo e espaço jogados num mar de simples pensamentos dentro de sua cabeça sonolenta e genial, seu corpo magro, quase esquelético carregava as roupas com as quais nascera, o velho manto de luz violeta, que apenas ornava e não o protegia de frio, calor ou coisa que o valha pois nada disso havia ali. Vagava pelo nada infinito tempos após tempos, milhares de anos terrestres, eram o que seriam apenas minutos de um dia de vida do Mestre e assim era sua existência, a existência da única coisa que havia, o Mestre do nada.
  Nasceu da explosão, não se sabe de que, viu a luz, a Grande Chama Violeta o trouxe ao nada, foi e não voltou, apenas o deixou lá, já nasceu velho de aparência anciã, e estes eram os fatos que o fazia vagar e pensar sobre o que era aquela chama, o que foi a explosão, o que era ele próprio e para que sua existência dentro de um marco zero infinito. Conflitos existenciais não faltavam para o Mestre, o pensamento do nada e da não existência sempre lhe afligiu, sempre esperara o surpreendente encontro de algo, alguma substancia, matéria de qualquer espécie cuja qual ele desconheceria certamente a utilidade, proveniência e toda e qualquer informação, nunca vira nada a não ser ele próprio e sempre vagava no vácuo a procura de algo, para fim de companhia ou distração dentro do nada infinito, alguma coisa que parasse com a obrigação de ser a única coisa que lhe restava ser, um filósofo, pensador, o Mestre do Nada. Pensamentos lhe invadiam a alma, perguntas lhe surgiam sem respostas, assim aprendeu a responder por ele mesmo, como lhe parecesse certo, certo de que não havia também a medida do certo, não se sabia, com ele havia a esperança da certeza e um turbilhão de pensamentos.
 
***


  O sentimento de revolta era comum, nada havia por fazer, apenas pensar sobre as pequenas coisas que tinha na memória, digerir e remoer seus pensamentos vagos sobre o nada, nascimento e vida era o que tinha em mãos para aqueles momentos. A esperança era arma forte para situações daquele tipo e o Mestre se guiava pelo vácuo com a luz da esperança, sim a esperança de haver algo, pelo menos um futuro que lhe mostrasse e ensinasse sobre as coisas que podem haver, bradava dentro do vácuo sua indignação e ira: _ “Não há nada aqui, apenas eu e minha roupa de luz, o que sou então?” A luz emanava de seu corpo quando irado, iluminando o nada e assim percebeu que sua luz podia expandir-se de maneira intensa como a um sol e isso o fez parar, parou e pensou por muito, muito tempo.
  Pensou tanto, o que seria essa luz? Viu que era bom, podia ver o nada iluminado e assim saiu vagando novamente em sua busca ao meio do nada eterno, se agarrou a uma direção e foi, a esperança sempre ao lado lhe guiando pela mão e sempre na mesma direção e pensando: “O nada dever ter um fim, eu existo e sou o seu Mestre, assim sendo chegarei ao fim.”
  Em sua busca sem fim, pelo nada eterno, vagava, procurando na mesma direção algo que lhe dissesse a finalidade, do sentido, o porque e causa de existência de um único ser brilhante e poderoso. Já cansado parou. Pensou. Descansou o corpo e fechou os olhos, entrou em um sono profundo por um momento de quase eternidade e ali ficou, estático, flutuante em seu repouso de Deus do Esmo.
  Abriu os olhos vagarosamente, olhou para a direção a seguir e prosseguiu para seu desconhecido e angustiante destino, foi quando de muito mas muito longe, viu uma pequena luz a frente e seu sorriso fez-se frenético, alucinadamente e eufórico, aumentou a velocidade das passadas esvoaçantes, seu coração batia forte e a alegria o tomara de maneira tão intensa que foi assim que soube de sua existência, as mãos ajudavam as pernas a abrir caminho dentre ao vazio, sentiu um líquido lhe percorrendo a face que emanava dos olhos, e os sentimentos lhe invadiam o corpo lhe dando um choque e novas sensações que antes era de total desconhecimento, ia ele em direção à luz, desesperado pela sede de conhecimento para que assim matasse todas as curiosidades, e talvez a solidão que sempre lhe foi forçada parceira e desta sempre teve conhecimento. As perguntas povoavam sua mente, várias delas cada qual com a sua devida pertinência, e a esperança lhe dava a certeza de que agora haveriam muitas respostas.
  Ao se aproximar da luz, viu diminuir sua intensidade e assim a coisa tomara forma, e pode concluir que se tratava de uma planície, um solo, um espaço, um espaço pequeno para ele, porém de proporção gigantescas para o homem comum. Era um espaço plano e aberto que ele pode comprovar a distancia e assim resolveu checar de perto. Com todo o seu tamanho de um Deus, pousou sobre o local fazendo todo o espaço em sua volta tremer por momentos indeterminados, o impacto faz grandes rachaduras no solo da planície, sentiu a sensação dos pés pisando em solo firme, coisa tal que nunca sentira antes, com dificuldade aprendeu a caminhar pelo espaço, com tropeços e tremores, tudo era novo, e sendo assim observou, notou que nada havia ali ao redor e assim fora à exploração do lugar que agora existia em seu vácuo. Caminhou muito, observando cada detalhe do local, que se tratava de uma planície sólida, limpa, sem nada para ver ou observar, pelo menos ali por onde ele passara até então. Continuou seu caminho na planície, foi quando deparou com um objeto, estático e estranho como já era de se esperar que lhe parecesse, chegou ao objeto e olhou e observou por momentos, era uma espécie de molusco, nunca visto antes nem mesmo para nós, muito menos para ele, o bicho já morto, então ele não o conhecera e o que restava ali era apenas a carapaça algo parecido com um caracol. E ali ficou observando e raciocinando sobre o objeto, sua utilidade, forma, consistência, textura e tudo o que se podia descobrir observando aquilo que encontrara. A felicidade tomara conta de seus pensamentos: “Deve haver mais coisas do que eu e este objeto, há mais por esperar, obrigado esperança!”  
  Caminhou feliz, a vida poderia estar fazendo sentido depois de todo o nada de sempre agora fatos novos ou simplesmente “fatos” para uma vida dentro de um vácuo, partiu continuando sua exploração naquela planície que nunca havia visto antes ou nunca havia passado por ali, não sabia afirmar pois na imensidão do nada, não há parâmetros para saber. Mais à frente, de um lado qualquer daquela planície, havia uma construção rudimentar, uma velha cabana e o Mestre sem nada entender ali chegou e se encantou novamente pela surpresa da matéria sólida existente, fundada e construída a sua frente, deslumbrado pela construção observou cada espaço, cada coluna e para ele a simples cabana era uma obra divina e complexa, desconhecia a utilidade, era tudo a partir de agora uma grande e bela novidade, todos os seus pensamentos foram tomando formas diferentes daqueles momentos para frente. Ele entrou na cabana, observou os cômodos, era tudo feito com muita simplicidade, muito rústica, rudimentar mesmo, feita inteiramente de madeira cujo material era totalmente desconhecido do Mestre como era de se esperar, observava tudo como uma criança, tocava cada parede, cada viga de madeira, sentia cheiros, odores vindos do vegetal que nunca lhe percorrerão as narinas, nunca havia usado os seus sentidos pois nunca necessitara, degustar, cheirar ou tocar em algo, tudo era real e novo para ele. A cabana não possuía móveis nem utensílios de qualquer espécie e ali ele sentira o sentido, o começo da finalidade, um real aconchego de um mundo, de um espaço, de coisas, de vida.
  Saiu da sua nova morada, olhou para fora, viu o horizonte, que nunca imaginara antes existir, bem ali na sua frente, brincando de paisagem, lindo demais, era o fim da planície e o começo do nada,  assim ele saiu para caminhar novamente pelos arredores de sua nova morada, e foi ali que viu que o solo da planície mudava, não era mais lisa como metal ou mesmo um plástico, era cheio de grãos, torrões, que desfaziam na medida em que ele os pisava em sua caminhada, sentiu mais novas sensações de bem estar, conhecia a terra, o verdadeiro chão de um mundo, a mãe da vida estava ali para lhe apoiar em sua nova etapa e começo de vida, sentia o cheiro da terra inundar suas narinas e assim a sensação era de um verdadeiro nascimento e o começo de novas perguntas, questionamentos diversos, sua mente filosófica não parava com a ebulição de idéias e foi assim que avistou um ser, era estático, verde, vivo, brilhante no meio da parte coberta com terra da planície, ainda estava meio longe de seus olhos porém mesmo assim conseguia definir figura, decidiu voltar e descansar: “Volto depois e me apresento ao ser verde.”    
 
***



  O Mestre desperta do sono profundo e sai para sua empreitada a fim de conhecer o “ser verde” que vira antes de seu descanso. Sai da cabana vai ao encontro do “ser” no meio do terreno coberto por terra e lá chegando observa deslumbrado uma verdadeira obra de arte. Tratava-se de um ser verde, não emitia som, não se mexia, ficava parado com várias partes que finas e largas que saiam de outra mais grossa que sustentava todo resto, era uma planta, um belo exemplar de uma planta, viscosa e de proporções de um arbusto. O Mestre notou que ao redor dela estava repleto de pequenas “bolinhas” que caíram dela mesma e que algumas “bolinhas” destas estavam se transformando em pequenos seres verdes como a que ele estava observando. Acariciando as folhas, num gesto brusco de um gigante, arrancou uma das suas folhas e assim assustado, pensando ter machucado a planta ficou observando e analisando a folha, e esperando talvez uma reação por parte da planta, que permaneceu estática, sentiu o cheiro bom que exalava da folha, passou pela boca e mordeu um pedaço dela, e pela primeira vez em sua existência sentia um gosto e assim mastigou a folha e se sentiu bem, gostou do que sentiu, a felicidade era enorme, novas sensações, novos seres, um lar, um chão para se pisar, tudo era realmente esplêndido e novo, o sorriso estampava-se sem querem em seu rosto, agora a vida além de existir, possuía gostos, cheiros, texturas e novos sentimentos.
  Acabou por mastigar mais das folhas daquela única planta e mastigando observava as “bolinhas” que na verdade eram as sementes, percebendo que a planta crescia dali, ele espalhou suas sementes pelo espaço enorme de terra que havia ali e assim, depois de todos os momentos novos de trabalho, foi novamente descansar o corpo que sentia pela primeira vez o peso do esforço, do passo, do arremesso de sementes no campo e o suor que inaugurava em sua pele. Deitou-se na terra e assim cerrou os olhos e quando acordou o terreno estava repleto de arbustos viçosos, já não podia se ver o chão de terra e o horizonte era verde, verde e lindo mais do que nunca.
  Colheu muitas folhas e as comia, comia sua primeira refeição herbívora, verdadeiramente vegetariana e simples, comeu muito pois nunca havia comido, a fome era um sentimento que carregava, porém o desconhecimento não a deixava se percebe e quando se saciou desmontou em sono profundo novamente, dormiu gerações e quando acordou, as folhas secaram, estavam mortas, secas e mortas. Na planície surgiram nuvens enormes, e uma tempestade assombrou o Mestre e a chuva abateu sobre tudo, encharcando cada pedacinho de terra e toda a planície, os trovões surgiram com força e o Mestre correu para a cabana, observando tudo da janela, pensava ser algo querendo lhe dizer alguma coisa. Os pensamentos voltaram como turbilhão em sua mente e as dúvidas emanavam novamente, “O que seriam estes brados?” E foi então que os raios despencavam do céu dentre as nuvens negras que sobrevoavam apenas a planície, os raios tocavam o solo e as folhas secas das plantas e assim um grande explosão se fez e uma enorme fogueira começou por ali, as chamas tomaram conta de grande parte de tudo que o Mestre havia plantado e o fogo queimava tudo com grande violência, o som do fogo criptando no campo invadia seus ouvidos e novamente o som da natureza falava em seus ouvidos.
  A chuva passou rapidamente, restando apenas alguns poucos trovões que ainda assustavam o Mestre, foi então que ele saiu da cabana e dirigiu-se para perto da fogueira, chegando perto o suficiente para ver de perto e pela primeira vez o “fogo”. Seus olhos não se mexiam, não piscava, apenas olhava atentamente ao fogo dançando em labaredas entre os galhos das plantas queimadas, chegou mais perto e pode sentir um bom aroma proveniente da queima das folhas, e chegou mais perto ainda, inalando a fumaça da planta queimada e isso lhe dava uma sensação de bem estar tremenda, chegando fechar os olhos e ver coisas que nunca vira antes e não sabia o que eram. Gostou tanto que correu para a cabana e buscou o velho caramujo gigante que havia achado e guardado em sua cabana. Pegou as plantas ainda em brasa e encheu o espaço vazio do caramujo com elas, e ali tragava a fumaça das plantas queimadas sem parar e assim o silêncio e o nada voltaram precedidos de uma forte luz, e tudo sumiu e havia novamente ele apenas e o vácuo. Abriu os olhos bem abertos e uma luz o alcançou e o envolveu e da luz veio uma voz que dizia: ”Tu és Allah-Bilama, e és o dono de tudo, o Senhor do Esmo dono dos Pensamentos e Ações, tu és Allah-Bilama e de ti vira todo o resto.” E em forma de um relâmpago, a luz entrou dentro de sua mente e iluminou o saber que já havia ali, e por fim ele sabia todas as respostas... “Ele era tudo dentro de um nada, ele é Allah-Bilama.”

***



  Acordou depois de muito tempo, já não tinha o mesmo olhar de menino ignorante, era Senhor do Saber, sabia de seu poder, tinha todos os conhecimentos e ai entendeu o porque de ser o Mestre, e entendeu o porque do exílio e todas as suas questões que lhe afligiam a mente perturbada.
  Sendo assim se pois a colher todas as plantas secas que sobraram, acumulando tudo em uma grande fileira equivalente a vários mundos, seriam milhares de séculos que levou para este trabalho, indo a fileira de plantas secas até o fim da planície, divisa com o abismo do nada e lá ordenou a planta que queimasse vagarosamente, foi até a outra ponta próximo a cabana e acoplou o caramujo no começo da fileira e lá mesmo começou a tragar o gigantesco cigarro da planta seca.
 A Grande Chama Violeta estava de volta, forte e ofuscante, fechou os olhos e tudo começou, viu uma grande explosão, pedaços enormes de matéria viajando em velocidades imensuráveis, pequenas e grandes explosões e um espaço se formando, as estrelas, pequenos planetas, os cosmos todos e assim ele viu o surgimento do universo e das galáxias sem fim. E em sua viajem pelo universo ele olhou para um pequeno planeta e nele quis ver a vida e assim começou a imaginar e construir o planeta onde haveria seres, viu e ordenou que houvesse água e terra em abundância, imaginou e ordenou a existência de vários seres irracionais, seres que se desenvolveriam e viveriam sua vida conforme a sua vontade, à vontade de Allah-Billama. Imaginou, seres que seriam parecidos com ele mesmo, imaginou o planeta antes destes seres viu e quis que surgisse o homem, fez com que fossem inteligentes e livres para viver. Viu e imaginou todas as guerras e riu das burrices dos homens, viu e imaginou sua evolução, ele dominaria todo e qualquer pensamento e atitude e o homem seria apenas objetos de sua vontade, imaginou homens ruins, para testar a força da humanidade, colocou Cristo no mundo e riu de todos até hoje por acreditarem, fez Buda, Maomé e Oxalá e fez com que todos fossem aos seus cultos e matassem por eles. Viu Hitler matar metade de seu planeta e festejou a burrice humana mais uma vez quando seu cigarro estava em menos da metade. Viu e mandou Osama testar o “poder” Americano. Também ajudou muita gente que precisava, deu o conhecimento para muitos médicos descobrirem e tratarem doenças, para dar e dividir com os homens a “Esperança” sua companheira nas horas difíceis que não se fez de difícil em ser amiga dos homens. Deu-nos a solidão para testar a força humana só! Nos deu a alegria para festejarmos a vida que não é justa mais ainda é boa, nos deu momentos de felicidade para reafirmar a crença na vida dentro deste mundo cheio de tantas coisas... cada um de nós é uma viajem de Allah-Bilama, que viaja profundamente nos dando atenção para nossas vidas e assim o fim do cigarro está próximo e aguardamos vossa última tragada, o fim destes tempos, de nossas vidas e o Mestre recomeçar a plantação..

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Frio como pedra...

  Chovia e ventava muito, a tarde parecia que não iria acabar bem para qualquer ser humano que estivesse fora de seu lar naqueles dias de começo abrupto de inverno, bom mesmo era estar numa cama quentinha, com uma boa xícara de café com leite bem quente assistindo algum filme imbecil da tv aberta de nosso querido e furtivo país. As árvores dali já estavam parecendo ir passear, como se fossem levantar vôo e seguir um caminho natural guiadas simplesmente pelo vento, o cenário cinza era predominante e as 13:45hs a noite fazia-se de forçada presença naquela paisagem fora de hora.
  Ele pensou:  -Esta frio e venta muito mesmo... acho melhor esperar. Porém tinha compromisso, havia tanta coisa para ser feita, quantas pessoas dependiam dele? Quantas respostas precisava dar, quantos conselhos inadiáveis para pessoas desesperadas que nele depositavam o que lhe restara de esperança. Dentro de sua cabeça as idéias vinham e iam como o vento que dominava o lugar..."Zébrinha não pode ir embora hoje e Carmão teria que esperar o pai chegar de Vila Velha e hospedá-lo no Sertão junto ao seu primo". Tantos compromissos, quanta coisa por fazer, sentia seu coração bater pesado, e os sopros lhe causando taquicardias que o faziam soluçar. Dentro do armazém, tudo tão quente e mediamente confortável, com um copo de conhaque de alcatrão nas mãos tensas, trêmulas e já enrugadas pela umidade e pelo próprio tempo de vida, tempo de uso mesmo. -Quer saber, vou enfrentar a chuva, enfrentarei esse vento e toda as desgraças que ele trás consigo, levo a enchente no peito, nado pelo vento minuano e chego em meu destino e resolvo de uma vez as pendengas dessa vida que tanto estão a me castigar o pensamento. Pensou e agiu.
O homem se armou de oxigênio e bons pensamentos, colocou a esperança em dia e resolveu. Abriu a porta de madeira batida do armazém, levando no rosto um tapa feroz do vento vivo e congelante, os respingos agudos da chuva torrencial ardiam-lhe a pele como esponja na pele bem esfregada e assim se lançou com seu corpo para fora, com o vento quase lhe devolvendo para dentro do armazém, porém em passos insistentes ele caminhou para fora um passo depois do outro.
  Uma mão enfiada dentro do paletó e o outro segurando o chapéu de feltro, os pés já encharcados pelas poças d'água que logo foram se transformando em piscinas e as piscinas e rios e os rios em correntezas arrastando a tudo pela frente, ele andava e com esforço do outro mundo alcançava metros e metros à frente, indo para o mais próximo possível de seu destino; "Não podiam ficar sem mim e sem as minhas soluções", pensava e caminhava, cada vez mais o esforço era sobre-humano para aquelas pernas que já não eram de um vaqueiro, muito menos esportista. Cansou, o rio que se transformara as ruas, forçava para que seu caminho fosse o contrário, seu coração batia descompassado demais, o pulmão que já não era bom, já não tinha força para colher no espaço o ar que necessitava. A barba branca já empapada, quando respirava, sempre vinha muita água junta, por todos os lugares era bombardeado violentamente pelas forças da natureza, a chuva forte já lhe lembravam pedradas, o vento parecia querer lhe arrancar os membros e sobre tudo lhe tirar do poste onde já havia se agarrado para não ser levado pelo rio de lama. O corpo estava mesmo padecendo, a visão que tinha de onde estava não era bonita, muita coisa sendo arrastadas pelas águas, as árvores em grande número já não se agüentaram nos seus devidos lugares, suas raízes cederam e se deixaram levar pelo rio lamacento. Havia um cão cinzento, que ele conhecia, era de seu amigo Reginaldo do Coco, o nome do cão era Cinzento e o Cinzento... rodava no espiral de um redemoinho nas águas que o levou não sei para onde... "Pobre Cinzento... vai saber onde ira parar"; pensou e voltou a se agarrar firme ao poste. O gosto do arrependimento de tantas coisas tomaram sua boca, sobre tudo de deixar o conforto do Armazém... "Seu Frávio bem que me avisou de tal trapaça dos tempos".
  Quando deu por si novamente ainda ouvia os latidos do Cinzento, olhou para direção dos latidos e ainda viu o cão se despedir do mundo, e nesse momento seu corpo todo molhado já não suportava o frio dos ventos, a umidade tomava-lhe o corpo todo, sentia-se como um chache de mate num copo de água gelada, os pensamentos começaram a ficar bem confusos e por instantes achava que estava totalmente bêbado com amigos, abraçado em um poste pronto para regurgitar toda a embriagueis, e quando a consciência lhe tomava novamente o censo, via-se perdido, não havia nada nem ninguém por lá, apenas ele, o som dos trovões, o cantar dos ventos e o silêncio do frio que lhe queria a alma. Fechou seus olhos e não se lembrava mais do porque estar ali e logo já não lembrava o que era aquilo tudo, aqueles barulhos todos e rapidamente não ouvia mais nada, fechou os olhos, agarrado ao poste com o rio forçando suas pernas a sair dali e ali no escuro de seu mundo, silencioso, distante de tudo ficou, alheio, obstinadamente só e incorrupto ali naquele poste.
  Já era quinta feira e a chuva e toda sua desgraceira foi-se. O sol envergonhado chegou e vagarosamente as ruas foram secando e dando desenho de novo ao todo. O lixo e cheiro ruim que já era de se esperar de um dia após um dilúvio já se instaurara no ar do Sertão e todos lentamente começaram a dar as caras. Feliciano o menino de Deodete correu todo corado e agradecido pelo sol que trazia liberdade das brincadeiras de rua novamente, correu, correu, juntamente com Cipó seu cacharro vira-lata que gostava de roubar qualquer pedaço de tira-gosto que lhe marcasse de frente a cara. A fumaça devida à evaporação das águas ainda subia naquela manhã e Feliciano corria batendo uma bola de borracha bem antiga e já furada e murcha por ali. Passa pelo Armazém e cumprimenta o Seo Frávio que ali estava alisando o gato como todo o tempo que o vira por lá... "Tarde seo Frávio!"; "Tarde Feliciano!" respondeu o velho, atirando um biscoito ou coisa que o valha para Cipó, e dali seguiram caminhada virando a esquina, Feliciano olha meio desacreditado e vê um espectro agarrado ao poste, chega perto e vê o homem ali agarrado, encharcado e com olhos assustadoramente brancos... calmamente voltaram ao Armazém ele e Cipó, avisaram seo Frávio e então uma pequena multidão se juntou ao poste e ao seu novo adorno, todos olhavam e admiravam, era difícil por ali defunto na rua, todo mundo morria na cama, era rara a ocasião e por isso o leve tumulto. 
  As mães chegaram já pegando cada filho pela respectiva orelha e assim os arrastando rua a fora..."Vamo moleque tá doido é? Não é bom ficar vendo defunto na rua não!" Os homens ficavam discutindo o que lhe teria ocorrido, Seo Frávio falando que teria avisado ao falecido sobre o temporal e seus perigos de morte. Chegaram assim os mais convictos enfermeiros e bombeiros do sertão, entendidos do assunto, e trataram de retirar o homem que no poste jazia, suas mãos fixadas uma na outra com os dedos trançados e as pernas abraçando também o poste, o homem estava duro como pedra, gelado como se posse a fazer gelo mesmo, com uma força abrupta e exagerada lhe arrancaram dali, jogado ao chão o homem continuava na mesma posição, morto, duro e gelado. Já não daria mais para aconselhar ninguém, Zébrinha já deve ter ido embora e ele não impediria, Carmão não deve ter esperado o pai chegar e a vida atrapalhada pela sua ausência permaneceria ininterrupta, inabalável, a única coisa que mudaria era o seu estado, que agora é sólido como pedra, sem vida como pedra, como se ele tivesse se transformado no poste que agarrara a noite toda. As pessoas, continuaram suas vidas e ele já não mais, tudo está normal ou não, pois já não importa mais, ele jaz aqui no poste e logo é piada.